Essa é uma pergunta que escuto muito:
“Será que preciso mesmo ter medo do parto?”
Se você chegou até aqui com essa dúvida na cabeça, quero te dar um abraço apertado e dizer:
não, você não precisa ter medo — você precisa de informação, de preparo e de apoio.
O medo do parto é muito comum. E ele não é só seu. Ele é coletivo, é social, é histórico. A gente cresce ouvindo histórias de dor, de sofrimento, de que o parto é um momento traumático. Vemos filmes com mulheres gritando, cenas rápidas em hospitais, luzes fortes, médicos correndo. E isso tudo vai criando, aos poucos, uma imagem de que parir é perigoso, difícil, impossível.
Mas a verdade é outra:
o seu corpo sabe parir. Ele foi feito para isso.
E quando a gente entende como esse corpo funciona e o que ele precisa para trabalhar bem, o medo dá lugar à confiança.
Como surgiu o medo do parto?
Você já parou pra pensar quando tudo isso começou?
Por que, ao longo da vida, fomos absorvendo a ideia de que o parto é algo perigoso, difícil, quase impossível sem intervenção?
A verdade é que o medo do parto não nasceu com a gente. Ele foi ensinado.
No passado, o parto era feminino, coletivo e fisiológico.
O parto acontecia em casa, entre mulheres. Parteiras experientes guiavam o processo com sabedoria. O corpo da mulher era respeitado. O tempo do bebê também. O conhecimento passava de geração em geração. O parto era visto como algo natural.
Mas tudo isso mudou com o tempo.
O parto foi levado para o hospital.
A partir do século XVIII e XIX, com o avanço da medicina, o parto passou a ser tratado como procedimento médico. E sim, a medicina salvou vidas, mas também tirou da mulher o protagonismo.
Ela passou a ser colocada deitada, muitas vezes amarrada, anestesiada sem consentimento. A cena mudou: luzes, profissionais decidindo tudo, movimentos limitados, intervenções em excesso.
O corpo da mulher passou a ser controlado. E com isso, o medo cresceu.
A dor virou inimiga. O processo natural foi substituído pela pressa. E a mulher, que antes era a protagonista, virou uma espectadora do próprio parto.
O medo não é fraqueza. É falta de apoio e preparo.
Sentir medo é normal. Mas ele precisa ser acolhido e transformado.
O medo que sentimos vem da falta de preparo, da desconexão com o próprio corpo, da cultura que nos ensinou que parir é perigoso.
Mas você não precisa carregar esse medo sozinha.
Com informação, com preparo e com orientação correta, você pode sentir segurança.
E é aqui que entra uma das ferramentas mais poderosas do cuidado com a mulher:
a fisioterapia pélvica e obstétrica.
O que é fisioterapia pélvica e obstétrica?
É uma área da fisioterapia que cuida da saúde íntima da mulher em todas as fases da vida — com atenção especial para a gestação, o parto e o pós-parto.
Na gestação, a fisioterapia te ajuda a se preparar fisicamente, emocionalmente e funcionalmente para o nascimento do bebê. E isso faz toda diferença.
Com ela, você aprende a:
- Conhecer e sentir sua musculatura íntima (o períneo);
- Respirar de forma funcional;
- Criar mobilidade na pelve;
- Preparar o corpo para o parto com movimentos simples;
- Aliviar dores (lombar, púbis, costelas);
- Melhorar a postura;
- Reduzir o risco de lacerações;
- Acelerar a recuperação no pós-parto.
Tudo isso com respeito ao seu tempo, sua história e suas escolhas.
Seu corpo sabe o caminho. Só precisa de espaço e tempo.
O seu corpo foi feito para parir. Isso não é frase motivacional. É anatomia, fisiologia e biomecânica.
O útero é um músculo poderoso. Ele contrai em ondas para empurrar o bebê para fora. O períneo se alonga. A pelve se move. Tudo isso funciona em harmonia.
Mas, para isso, o corpo precisa de espaço, de movimento e de liberdade.
Na fisioterapia, usamos princípios da cinesiologia e da biomecânica para abrir espaço para o bebê. Com movimentos simples — como balançar o quadril na bola, agachar com apoio, girar a pelve — a mulher ajuda o bebê a se encaixar.
O bebê também participa do parto.
Sim! O bebê não é passivo. Ele também se movimenta. Ele gira, encaixa, busca o melhor caminho.
E quando a mãe está livre para se mover, ela colabora com esse movimento.
É como uma dança. O corpo da mãe e o bebê se comunicam.
Cada contração é um passo. Cada posição favorece um caminho.
E quando há mobilidade, o parto flui melhor.
O períneo: o grande aliado do parto
O períneo é a região entre o ânus e a vagina. Ele é formado por músculos e tecidos elásticos. E ele tem um papel essencial no parto.
Imagine o períneo como uma gola de camiseta. Se ela for dura e apertada, machuca. Mas se for elástica e preparada, a passagem é muito mais suave.
Na fisioterapia, a gente trabalha:
- A percepção do períneo (para você sentir e controlar);
- O relaxamento (fundamental para a passagem do bebê);
- A elasticidade (com alongamentos e massagem perineal);
- O controle (para ajudar na recuperação).
E tudo isso de forma respeitosa, sem dor, sem desconforto. Sempre com cuidado.
O posicionamento das pernas muda tudo!
Simples mudanças na posição das pernas podem ampliar o espaço dentro da pelve. Por exemplo:
- Abrir os joelhos;
- Virar os pés levemente para fora;
- Inclinar o tronco para frente;
Esses ajustes fazem com que o diâmetro da pelve aumente, criando espaço para a descida do bebê.
É como abrir uma porta. O bebê agradece.
Esses posicionamentos são ensinados e treinados na fisioterapia. Assim, no momento do parto, o corpo já reconhece o caminho.
Movimento é liberdade. E o parto precisa de liberdade.
O parto não combina com rigidez.
O corpo da mulher precisa se movimentar.
- Sentar na bola;
- Agachar com apoio;
- Dançar;
- Inclinar;
- Deitar de lado;
Tudo isso ajuda o bebê a descer, a dor a aliviar, o trabalho de parto a evoluir.
Na fisioterapia, a gente te ajuda a experimentar esses movimentos, respeitando seu corpo e seu tempo.
Recursos que usamos na fisioterapia para te ajudar:
- Bola suíça: ajuda a aliviar dores, movimentar a pelve e encaixar o bebê.
- Banqueta de parto: simula a posição vertical, favorecendo a gravidade.
- Rebozo: técnica com tecido que ajuda a soltar o quadril.
- Massagem perineal: aumenta a elasticidade e reduz o risco de laceração.
- Respiração funcional: te prepara para respirar com consciência durante as contrações e a expulsão.
Tudo é feito com orientação, com leveza e com muito respeito ao seu corpo.
E se eu quiser analgesia?
Sem problema nenhum. A fisioterapia não é contra analgesia. Ela é a favor da sua escolha.
Mesmo com analgesia, seu corpo se beneficia da preparação.
Se o bebê já estiver bem posicionado, se o períneo estiver elástico, se você souber respirar — tudo flui melhor.
A recuperação também tende a ser mais rápida. E se for necessário o uso de instrumentos (como fórceps), o corpo preparado responde melhor.
E depois do parto?
A fisioterapia continua sendo sua aliada no pós-parto.
Ela ajuda você a:
- Recuperar a força do períneo;
- Tratar possíveis perdas urinárias;
- Reorganizar a musculatura abdominal;
- Cuidar da cicatriz da cesárea (se for o caso);
- Melhorar a postura e aliviar dores;
- Fortalecer o corpo com segurança;
O puerpério é intenso. E seu corpo precisa de cuidado, acolhimento e tempo.
Você não precisa ter medo. Você precisa de preparo.
Essa é a mensagem que quero deixar com todo o meu coração:
Você não precisa ter medo.
Você precisa ser acolhida.
Você precisa ser orientada.
Você precisa conhecer seu corpo.
A fisioterapia pélvica e obstétrica não é luxo.
É um cuidado que transforma a forma como você vive a gestação, o parto e o pós-parto.
Seu corpo sabe o caminho.
Você não está sozinha.
E sim, você pode viver um parto mais leve, mais seguro e mais respeitoso.
Déborah Corrêa
Crefito 285988-F
Referências utilizadas para este conteúdo:
1.Brasil. Ministério da Saúde. Caderneta da Gestante. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. (Fonte oficial sobre orientações para gestantes e parto no SUS.)
2.Simkin, Penny; Ancheta, Ruth. “O Nascimento é um Milagre: Guia para gestantes e acompanhantes.” São Paulo: Ground, 2016. (Referência sobre fisiologia do parto e preparo da mulher.)
3.Reis, Fernanda; Vargens, Octávia. “Parto humanizado: uma nova forma de cuidar.” Revista Escola de Enfermagem da USP, 2011. (Aborda o resgate do protagonismo feminino no parto.)
4.Miller, Suellen et al. “Beyond too little, too late and too much, too soon: a pathway towards evidence-based, respectful maternity care.” The Lancet, 2016. (Referência internacional sobre excesso de intervenções e parto respeitoso.)
5.Berghella, Vincenzo (org.). “Evidence-Based Labor and Delivery Management.” Wiley-Blackwell, 2019.
(Referência científica sobre práticas baseadas em evidências no parto.)
6.Bo, Karin; Frawley, Helena; Hay-Smith, J. “Exercise and physical therapy for pelvic floor dysfunction.” Best Practice & Research Clinical Obstetrics & Gynaecology, 2019. (Base para os benefícios da fisioterapia pélvica.)
7.Spitznagle, Theresa M. “Physical Therapy in Pregnancy and Postpartum Care.” Obstetrics and Gynecology Clinics, 2021. (Revisão científica sobre atuação fisioterapêutica na gestação e parto.)
8.Organização Mundial da Saúde (OMS). Recomendações para o parto normal. Genebra: OMS, 2018. (Diretrizes globais sobre condutas respeitosas e seguras no parto.)
9.De Gasperi, Karina; Gentil, Karina. “Fisioterapia obstétrica: prevenção e tratamento das disfunções musculoesqueléticas durante a gestação e pós-parto.” Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 2020. (Aborda o papel da fisioterapia na preparação corporal para o parto.)
10.Coelho, L.; Rocha, N. “A importância da biomecânica pélvica no trabalho de parto.” Revista de Fisioterapia e Saúde Funcional, 2021. (Base para os conceitos de movimento, pelve e fisiologia do nascimento.)